Esquizofrenia – Conto I

Aviso geral: Trata-se de um conjunto de contos originais que levam o mesmo título “Esquizofrenia”, mas não necessariamente passados nos mesmos locais e vividos pelos mesmos personagens. Só uma é constante: a esquizofrenia deles.
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual, sendo vedada a utilização por outros autores sem minha prévia autorização.

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Conto I

“Dizem que o poeta é um fingidor, mas eu sempre discordei. Afinal, como pode uma pessoa que tem o poder de escrever, se conformar em criar mentiras se pode expor a mais estéril realidade?”

O pensamento me acompanhava enquanto o calor que saía do metal em forma de vapor atingia o meu rosto. Aquela mistura de odor de combustível, trânsito e multidão me deixava cada vez mais tonta, enjoada… enojada.

De repente, uma vontade destas que tomam conta dos nossos sentidos me guiou para longe dali em disparada. Corria, corria, corria desvairadamente como se a corrida fosse capaz de me levar à solução. Deixei para trás um motorista preocupado que respondia atordoado às perguntas do guarda. Acho que uma família ficaria sem alguns presentes de natal por causa daquela multa que havia sido culpa minha.

Tudo que eu mais odiava era ter que desviar do mar colorido que se formava de sombrinhas, guarda-chuvas, capas de chuva – e para o mendigo da esquina, um jornal úmido na cabeça e outro sob o corpo – que se formava em razão da precipitação que persistia em tomar conta do clima da cidade desde a noite passada.

Chegando ao prédio que procurava, deixei-me levar pelo elevador, só me dando conta de alcançar o destino quando a porta abriu-se revelando um corredor silencioso. Olhei para o relógio e temi ter realizado o caminho em vão, afinal, era de se imaginar que àquela hora as pessoas já estivessem nos seus respectivos trabalhos.

Saí do elevador e caminhei até a porta do apartamento número 408. Ficava no fim do corredor, perto de uma janela que distraiu por instantes a minha atenção, até que no retorno a ela pude tocar a campainha. O barulho ecoou do lado de dentro e passos eram audíveis em seguida.

Ele abriu a porta e minha única reação, isto é, a única coisa que meu corpo se permitiu fazer foi caminhar na direção dele de cabeça baixa e a um passo de distância, me deixar cair de exaustão. Ele abraçou-me de forma a me apoiar e quando ia me tomar nos braços com fim de me levar à sala ou ao quarto, protestei, pedindo para permanecer no mesmo lugar. Contragosto, ele obedeceu.

Ficamos sentados no piso perto da entrada por um sem fim de tempo. Ele tinha uma xícara de café na mão e com a outra acariciava meus cabelos como se isso fosse capaz de espantar os pensamentos dali e, de certa maneira, a cada movimento eu conseguia respirar mais tranquilamente.

Era visível na ansiedade da sua respiração que ele tinha necessidade em saber o que me acontecia, apesar disso, ele se resignava em me aguardar encontrar algum lampejo de razão e resolver contar – voluntariamente – o que me afligia. Era sempre assim, ele me deixava saber que estava ao meu lado e que dali não sairia mesmo quando tudo estivesse bem, simplesmente pelo fato de não pretender jamais sair do meu lado. Isso me fazia sentir uma injusta desajuizada. Não era bom para ele que se tolhesse sua perspectiva por minha causa e mesmo assim o fazia refém do meu capricho de desejar a sua companhia.

Quando a voz se sentiu menos tímida na minha própria garganta, puxei o punho da blusa de frio e deixando à mostra a pele, perguntei se ele via as cicatrizes ali. Ele balançou a cabeça negativamente, como era esperado. Ele sempre fazia isso.

Em verdade, no braço nu não era visível qualquer marca, todas elas estavam dentro da carne, dentro de mim ou naquilo que costumam chamar de “alma”. Apesar de não serem feridas visíveis, eu sangrava compulsivamente e sentia uma dor dilacerante a cada pulsar. Eram os sentimentos vazando e me deixando oca ou talvez fosse a razão indo embora e me deixando louca. De toda forma, eu estava perdendo o que me fazia eu.

Para completar a encenação que acontecia dentro da minha confusão, vozes começaram a gritar por socorro, como se somente eu pudesse ouvi-las. Olhei para ele que de nada sabia e me mantive alheia aos pedidos insistentes, tão nítidos.

Quando dei por mim, já estava acordando, de volta ao meu apartamento – no tapete da sala, se faz mais sentido – e, nas mãos, tinha uma camisa sua. O perfume que já ameaçava fugir com o tempo estava cada vez mais distante e imperceptível.

Foi assim que me dei conta de que aquele sonho foi apenas mais uma das minhas ilusões.

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