Esquizofrenia – Conto II

Aviso geral: Trata-se de um conjunto de contos originais que levam o mesmo título “Esquizofrenia”, mas não necessariamente passados nos mesmos locais e vividos pelos mesmos personagens. Só uma é constante: a esquizofrenia deles.
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual, sendo vedada a utilização por outros autores sem minha prévia autorização.

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Conto II

O barulho irritante das gotas d’água que atingiam o ralo da pia já durava um tempo incontável, fazendo a minha cefaléia aumentar gradativamente. A dor que martelava na parte inferior da nuca parecia apostar com algum chato quem contava mais rápido em progressão geométrica. E ela estava ganhando, me deixando com pena do chato e com a vontade insuportável de tirar fora tudo acima do pescoço.

Como algum grau de racionalidade ainda tomava conta das minhas ações, não era possível me auto-decapitar ou cometer suicídio, como preferir, mas devo apontar que o último termo sempre provocou uma expressão de reprovação do velhinho das quartas-feiras. Sabe qual? Aquele! Aquele que fica na confortável poltrona preta enquanto eu mancho o veludo do divã cor de vinho com lágrimas e memórias de um tempo que jamais quis lembrar.

O barulho da água encontrando o metal parecia ficar mais alto a cada segundo ou talvez fosse coisa da minha mente, contudo, eu posso quase afirmar que em algum momento o repicar molhado e frio pareceu sussurrar alguma mensagem.

Parei de escrever no caderninho e olhei para a porta do banheiro, como se de lá fosse sair alguém com alguma resposta, mas eram apenas fantasmas de pensamentos, meus velhos conhecidos. Voltei os olhos na direção da página parcialmente preenchida em uma letra pouco compreensível, que não respeitava as linhas e parecia querer marcar o grafite em mogno, tamanha a força que imperceptivelmente aplicava na escrita.

Sinceramente, nunca entendi as razões do velhinho ao me incentivar a escrever nestas noites insones quando cansava de virar na cama procurando o sono, sem conseguir encontrá-lo. Assim, entre lençóis amarrotados eu cruzava as pernas como se fosse meditar, mas, na verdade, não fazia mais que rabiscar algumas páginas de ilusões. Às vezes histórias, às vezes contos, às vezes a minha própria vida. O segredo da tarefa era que a minha mente perturbada jamais me permitiu diferenciar qual página era dedicada a cada um destes tipos de texto e era nisso que o velhinho paciente me ajudava. Fazia 6 meses ou, quem sabe, um ano ou dois que eu o visitava nas quartas, enfim.

Parei de escrever novamente, tendo certeza que os pingos incessantes agora chamavam o meu nome. Atravessei a cama como o faz uma criança que não quer pisar no chão e dar a volta e caminhei a passos lentos na direção do banheiro. Abri ao máximo a porta e fiquei alguns instantes a observar a pia causadora de tanta dor.

A realidade é que a pia em si não era o problema. Este advinha das gotas teimosas que caíam da torneira provocando um barulho ensurdecedor naquele silêncio em que meu pequeno apartamento quarto-sala deveria viver mergulhado. Abandonei de vez, a maçaneta e me coloquei diante da pia como se interrogasse mentalmente à torneira a razão de me ferir com aquelas gotinhas infelizes.

Por um lapso de tempo, como se fosse possível, pude notar que, ao invés da torneira, quem respondia eram as próprias gotinhas. Como eram várias e falavam ao mesmo tempo, a sua voz era comparável a de um coral tentando ler um texto, ao invés de cantá-lo. Quase medonho e quase belo. Elas diziam que fazia parte de toda a encenação criar-me a dor de cabeça, como se fosse um esporte maldoso. Assim que a resposta tão nítida tocou nos meus ouvidos eu indignei-me com o objetivo tão vil e abri de todo a torneira, deixando que o fluxo de água espirrasse ao bater nas paredes da pia, molhando a camisola que eu vestia. O pesar da ação bateu na minha consciência, me levando a usar alguns lenços que haviam caído do cesto de roupas para empoçar a água na pia, quando esta encheu-se a ponto de transbordar, fechei a torneira com força.

Não havia mais gota alguma e nem som algum. Não havia nada. Juntei algum fôlego nos pulmões e mergulhei o rosto na água da pia. Em algum momento o ar começou a faltar e perdi a consciência.

Acordei na cama com os raios de sol da tarde batendo no meu rosto e ainda ouvindo o barulho das gotas d’água pingando da torneira da pia do banheiro, na mesinha da cabeceira da cama, o diário completamente em branco e já acumulando poeira na capa.

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