Piano man

Aviso geral: Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual, sendo vedada a utilização por outros autores sem minha prévia autorização.

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“Depois do silêncio, o que mais se aproxima
de expressar o inexprimível é a música.”
Aldous Huxley

Poucas coisas na vida comparam-se ao piano. Poucas vezes encontrei a felicidade longe do poder das teclas de ébano e marfim, tão quietas até que suas mãos chegam até elas, produzindo o mais perfeito som.
Ainda me lembro da primeira vez que toquei: era uma tarde chuvosa das tantas que ocorreram aos meus 10 anos de idade. Já tinha visto meu avô tocando por muitas vezes, mas nunca havia criado qualquer espécie de interesse nisso. Até aquele dia em que você resolveu buscar abrigo entre as pernas do antigo piano, tentava se esconder – sem qualquer efeito, devo indicar – dos outros primos que ameaçavam lhe tirar a boneca de pano feita pelas mãos delicadas da nossa saudosa avó.
Meu avô sempre dissera que a única coisa que pode expressar o inexprimível, além do silêncio, é a música. A música é capaz de tocar a todos com tanta eficácia que não se pode ter certeza se se trata de soberba ou humildade. Mas quando eu perguntei se ele treinava constantemente, ele disse que somente tocava na presença de pessoas amadas, o que me provocou alguma incerteza nas palavras dele. A questão é que, quando toquei algumas notas de uma conhecida cantiga infantil, isso foi capaz de te afastar as lágrimas do rosto e lhe motivou a dançar conforme o ritmo, fazendo de Marie, a boneca, sua donzela a ser guiada por entre os móveis da casa. A alegria que te encheu foi tamanha, que naquele instante eu pude ter certeza de que a única coisa que queria fazer era tocar eternamente para te assistir dançando.
Os anos passaram e quando aos quinze, você veio chorando, desta vez reclamando pelas piadas que faziam por ser a única garota que ainda não tinha um namorado, toquei uma música tranqüila que fizesse seu coração mais aquecido e quando me virei na sua direção para oferecer aquilo que lhe faltava, o telefone tocou e o interlocutor, por se tratar do garoto mais popular da escola, roubou toda a sua atenção.
Quando todos se preocupavam com as mudanças para dormitórios de universidades ou repúblicas estudantis, fui até a estação para te ver partir. Para que não se esquecesse de mim, entreguei-lhe um CD com várias músicas tocadas ao piano por mim.
O tempo passou e você descobriu que as pessoas nem sempre estão dispostas a te ver mais feliz que elas. Assim, quando foi reprovada numa determinada matéria por ter negado ir para a cama com o professor daquela cadeira, você ligou desesperada por uma música minha, alguma que fosse capaz de reviver memórias da nossa infância. Não hesitei em levar o celular até o piano e ali tocar uma melodia que te permitisse reencontrar seus doces sonhos.
Ao voltar para casa, espantou-se quando eu disse que havia me tornado professor de música numa escola local e algumas noites por semana tocava num barzinho relativamente movimentado. Insistiu por ir me ouvir tocar e, com alguma resistência, eu permiti – não poderia negar jamais um pedido seu. Na noite seguinte, exibi minha melhor performance, sabendo que você me escutava no meio da platéia ofuscada pelos holofotes que se voltavam para mim, o cara do piano. Terminando a apresentação, notei que você conversava animadamente com um homem mais velho que estava lhe acompanhando. Não consigo explicar o quanto aquilo me chocou, não posso explicar o quanto eu gostaria que alguém me tocasse uma música para levar a tristeza embora. Contudo, os dias e as noites se sucedem para nos mostrar que independente de qualquer coisa, nós somos pouco para interferir no universo.
Algum tempo depois, você pediu para que eu lhe ensinasse a tocar o piano. Dediquei-me ao máximo para te ajudar, mas aparentemente você não tinha muita coordenação ou qualquer senso de ritmo, isso me fazia rir como há muito não fazia, o que te provocou a expressão rabugenta mais fofa do mundo.
Quando já me acostumava ao fato de tocar piano nas tardes de inverno para a minha mais fiel fã, desta vez o toque do telefone que nos interrompeu buscava por mim. Surpreso fiquei ao descobrir que o homem que te acompanhou ao bar era um agente, que agora me oferecia a oportunidade única de gravar, tocar num dos teatros mais famosos do país e ter sucesso. Não resisti correr na sua direção e te abraçar forte, para ter certeza que aquilo era realidade ao que você confirmou com um beijo, nosso primeiro.
Certo dia, na verdade, madrugada, voltando de uma apresentação, te encontrei ainda acordada. Você me abraçou e disse que queria mostrar uma coisa. Sentamos no banco de frente ao piano e você tentou tocar as notas daquela cantiga infantil de vinte anos atrás, recebendo de mim uma expressão de confusão.
– Preciso que você me ensine a tocar aquela cantiga! Acho que Marie vai gostar de ouvi-la com maior freqüência… – você disse com um sorriso cálido enquanto repousava as mãos sobre o ventre, tornando aquele o momento mais feliz da minha vida.
Quando Marie chegou da maternidade, eu não conseguia parar de tocar o piano. Criei com o nome dela, uma peça que caía perfeitamente a quatro mãos, o que te convenceu a sentar-se comigo. Foi a única música que você realmente aprendeu e você ainda continuava mostrando aquela linda expressão emburrada, quando eu mencionava isso.
Alguns anos após “aposentar-me” da vida de apresentações profissionais e voltar a ser novamente o cara do piano daquele barzinho num canto esquecido da cidade, tive grande surpresa numa tarde que parecia comum como tantas. Estava ao piano tocando uma música singela, mas cheia de significado, aquela que eu havia usado para te pedir em casamento, quando Marie, de apenas 10 anos, sentou-se ao meu lado e tocou comigo, levando um homem nos seus quase 40 anos às lágrimas.
Grande parte da minha vida passei ao piano e a ele devo a concretização dos meus sonhos. O piano me ensinou que não adianta ter música se não tiver ninguém para escutá-la, uma lição valiosa que meu avô deixou para mim há muito tempo.

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