Inocência

Numa época em que não se fazia registro do tempo, em um lugar que hoje foi suprimido pelo mais detalhado dos mapas, duas crianças discutiam sobre verdades e mentiras.
– É, por exemplo, o nome das cores. Talvez o que chamamos de amarelo seja azul, mas como nunca questionam, ele fica sendo amarelo mesmo! – o menino tentava expor seu ponto de forma confusa.
– Você quer dizer que algo passa a ser verdade apenas pela vontade das pessoas? – a garota indagou incrédula.
– Sim! Imagina quantas coisas chamam de impossível só para que ninguém tente provar o oposto e todos vivam nesta prisão de conceitos?! – o pequeno agora estava de pé e usava de gestos para dar ênfase ao tamanho da ideia proposta.
– Claro, gravidade é um conceito vazio. Estamos presos à Terra por pura falta de credibilidade ao fato de que podemos sair voando. – a menina usava tanta ironia que sentia um gosto amargo na língua.
– Você me acha ridículo… – o outro chorou.
– Não por isso, mas sua teoria carece de praticidade.
A conversa arrefeceu com a chegada das primeiras estrelas visíveis entre as últimas nuvens douradas do fim de tarde.
A manhã seguinte acordou o mundo salpicando um sereno espesso por sobre toda superfície exposta do exterior das confortáveis residências. Ao longe, contudo, era possível notar o tom prateado do sol nascente. Esta imagem deu ao garotinho a ideia de que precisava para convencer a garota e impulsionado pela descoberta saiu correndo na direção da vizinha. Martelou urgente a porta da casa da garota e logo que ela se aprontou ambos foram correndo para o local em que estavam no dia anterior. O garotinho nunca sentiu as pernas tão curtas a levá-lo numa velocidade incompatível com a sua ansiedade.
– Adeus! – ele disse com um largo sorriso.
– O que você está falando? Qual o motivo de estarmos aqui tão cedo? – a garota estava confusa.
– Vou desafiar a gravidade! – ele disse soltando a mão da amiga e se colocou na direção da borda da elevação em que estavam. Uns bons metros separavam o lugar onde estavam da parte mais profunda abaixo da elevação.
– Você está maluco! Vai se machucar! – ela disse sabendo que seria impossível convencer aquele brilho decidido no olhar do amigo.
O pequeno, que parecia maior, em comparando-se ao dia anterior, deu um beijo estalado de leve na maçã direita da face da menina e jogou-se na garganta do desfiladeiro.
Quando a menina teve coragem para abrir os olhos viu a sombra de alguém voando acima das copas das árvores até desaparecer.

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