Delírios de adeus

A vibração insistente do celular me fez despertar do estado quase letárgico em que me encontrava há cerca de duas horas naquela mesma cadeira de treliça manualmente fabricada. Tinha por vista apenas a imensa árvore do quintal vizinho que consistia em um flamboyant que aguardou até o fim da primavera para florescer de maneira deslumbrante. As pequenas flores vermelhas tinham um tom coral tão vívido que se destacavam ao longe.
Reconheci o número. Irônico que a única pessoa que eu tentava miseravelmente anular dos meus pensamentos refizesse o caminho tão facilmente. Na verdade, era esperado. Não é como se não soubesse o caminho para entrar e fixar raízes da sua manipulação barata até (e principalmente) meu inconsciente.
Menina, não sei que bruxa te ensinou este feitiço, mas me passa o contato pra eu encomendar uma simpatia pra te vitimizar da mesma maneira. Era irresistível e logo após desligar me coloquei na direção que você exigiu.
Curioso você encontrar tempo para me ver naquela tarde gelada, a despeito de estarmos nos primeiros dias de verão, uma vez que era suposto você estar arrumando malas para ir em destino ao seu destino. Digo, este era todo o motivo da minha melancolia, você mudar para começar a faculdade tão longe daqui. Tão longe de mim.
O lugar que você escolheu para o inesperado encontro não poderia combinar mais com os tons fracos que coloriam minha alma naquele momento. A restinga mal presa, instável ao balançar do vento na areia fina da praia tinha um quê de verde musgo e marrom-amarelado. Um vômito do oceano em forma de vegetação. Era assim que meu estômago revirado sentiu quando te avistei molhando as pontas dos pés nas ondas que morriam violentamente na costa em razão da maré cheia. Pelo menos, poderia agora confirmar que era verdade que antes de morrer vemos alguns fragmentos de momentos vividos porque quando você virou para me encarar eu soube que você me matava, levava embora aquele órgão – que por acaso é meio vital – que tremia no meu peito. Vi lembranças desde a primeira vez que encontrei esse olhar sempre tão maliciosamente inocente, sua risada cintilante e todo detalhe que me fazia fantasiar tantas noites. Lembrei de tudo que remotamente te envolvia. Lembrei que dentro de poucas horas apenas estes pensamentos estariam comigo, a musa que os inspira a uma centena de quilômetros, no mínimo.
Você já me olhava há um par de minutos quando resolveu entregar minha sentença:
“Podemos continuar com as aulas de violão nos fins de semana? É que vou voltar sempre e nos feriados…”
Seus lábios formaram mais uma dúzia de palavras que eu não pude assimilar de imediato, pois uma inescapável onda de felicidade me afogou por um sem-fim de tempo sob o seu poder.
Acho que é isso que chamam de “para sempre”. Está aí a definição! A partir daquele instante eu estava oficial e irremediavelmente apaixonado por você por todo um sempre e nem um dia mais (ainda tenho minha dignidade, eu acho).

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