Carta para o Papai Noel

E aí, Noel,

Peço desculpas pela falta de jeito ao iniciar uma carta desta magnitude, mas é que sempre achei a palavra “querido” meio eivada de uma ironia nata e inarredável. “Prezado” ou “caríssimo” seriam desnecessariamente formais. Fica assim mesmo.
Pra começar, queria pedir desculpas pela ausência de notícias nos últimos 24 anos – o que não é muita coisa, já que você também não levantou o traseiro do trenó e veio procurar por mim -, além do mais, nesta época do ano está permitido crer no que for mais conveniente: nascimento de deidade, solstício, pular sete ondas ou escrever meus desejos pra um senhor idoso explorador do trabalho de anões não-sindicalizados. Escolhi a última opção, como pode perceber.
O grande problema é que além de não saber o idioma que o senhor fala, também não sei colocar em palavras o que me incomoda e fazer logo os três desejos da lâmpada mágica pra resolver.
Veja bem, eu queria se for possível, que você designe um dos seus robôs (com a quantidade de presentes natalinos carregados de tecnologia que há por aí ou você fabrica ou rouba; estou torcendo pra que suas atividades sejam lícitas ou a polícia vai apreender minha carta e “tchau, tchau solução”) com o fim de me ajudar a “ser mais eu” ano que vem.
Pode parecer estranho este tipo de pedido, afinal, ninguém dorme Maria-Bonita-esposa-do-Lampião e acorda Beyoncé, mas preciso admitir que o meu “single” vai além da ausência do anel brilhante na mão.
Ocorre que ao acordar toda manhã sou açoitada por um turbilhão de medos e ansiedade que me fazem erigir uma muralha a meu redor e tornam minhas pobres unhas espadas pra quem não sabe lutar. E firo. Aos outros e a mim.
Dá pra imaginar um quadro bem tenebroso com estes dados, certo?
Quero tirar a paciência da naftalina. Preciso cerrar as presas. É premente a necessidade de baixar a guarda e, temo que sem ajuda, já perdi a guerra inteira.
Se depois de analisar o meu pleito lhe parecer dengo da minha parte reclamar de algo do gênero, peço encarecidamente que me envie um toquinho de carvão.
No meio da minha solidão qualquer coisa é sinal.

Afetuosamente,
Sybilina.

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4 comentários sobre “Carta para o Papai Noel

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