Carência afetiva

fashion designer showing a dress to customer

Pela minha diminuta e indesejada – porém inevitável – experiência com comércio, contato com cliente e relações em geral, é possível afirmar numa análise sumária que a carência afetiva humana está atingindo graus altíssimos. Liguem pro Richter e peçam uma atualização urgente!
Posso ilustrar a conclusão com dois exemplos (numa loja de roupas, por serem mais próximos do meu cotidiano) bem comuns:

Caso 1. A pessoa chega desacompanhada na loja, e:

– Você não tem meu número desta saia?
– Qual o seu tamanho? – a vendedora pergunta.
– Não sei…
– Experimenta estes dois e vê qual fica melhor! – a vendedora diz encaminhando a cliente (porque homens raramente provam roupas e/ou pedem satisfação/opinião sobre suas vestes) ao provador.
– O que você acha? – pergunta a cliente sem senso de autocrítica.

Evidente que a vendedora, especialmente se comissionada, irá responder conforme a renda mensal lhe aprouver. Algumas ainda, podem mal se importar com tal fato e vão lançar um olhar de desdém e responder um “ficou ótimo em você” de forma ridiculamente robotizada do gênero “ninguém tá me pagando pra paparicar estranhos”.
Contudo e sobretudo por conta dessas duas razões a pessoa (cliente) insiste em perguntar, em exigir atenção, por saber que dificilmente ficará sem uma resposta delicada e comedida. Em casa podem falar que ela está gorda, precisa de um transplante de senso de moda ou falar com as paredes, mas na loja ELA SABE QUE SERÁ BEM TRATADA.

Caso 2. A pessoa chega descompanhada na loja (sim, em grupos é mais raro a manifestação explícita da carência afetiva), e:

Após desdenhar de praticamente toda a mercadoria, diz que vai voltar em breve com fim de saber se chegou alguma novidade.

Veja bem, ela pode nem ter observado minunciosamente os produtos (e em geral é bem assim), mas promete (e a vendedora já fica com os cabelinhos da nuca eretos) retornar com o fim de receber a sua atenção e simpatia.
Cá entre nós, é uma cortesia paga, ninguém gosta de sorrir de canto a canto enquanto o outro fala “não gosto disso”, “isso não faz o meu estilo”, “pena que tenho um igual”, “já usei muito” e afins. Na verdade, a vendedora que também tem seus próprios problemas com que lidar não está de fato interessada em saber tanto assim a opinião da cliente – ela só é paga para trabalhar ali. (Em comparação, pelo menos no primeiro caso compensou dispender tanto tempo, já que a cliente levou alguma coisa – ou não.)
Pelo ponto de vista da pessoa com síndrome aguda de carência afetiva isso bastará.

A análise mais pormenorizada leva a crer, segundo fontes confiáveis, que o karma é uma bitch que se vinga com graciosidade e sem qualquer sutileza, levando suas vítimas infelizes à insanidade irreversível.


P.S.: vendedores dos quatro cantos do planeta agradecem – de coração – se você não for um chato com este tipo de patologia.

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