O sofá de cor cacto imperial de Valência

Aviso legal: Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual, sendo vedada a utilização por outros autores sem minha prévia autorização.

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Já estava acordada havia algum tempo, mas parecia que algo me prendia à cama. Parecia que o peso dos lençóis me amarrava mais que a gravidade pode fazer.
Tentei abrir os olhos, sem sucesso, tudo continuava girando. Voltei a fechar os olhos, desejando ardentemente que aquilo tudo fosse apenas um pesadelo.
– Tati? Você está aí? – ouvi aquela voz familiar de preocupação da Ana me procurando pelos cômodos do apartamento.
“Oh, céus! Nem mais ter uma ilusão é permitido nesta vida?” reclamei em pensamento, ainda imóvel naquele quarto.
– Ah! Te encontrei! Já estava ficando preocupada, moça! Liguei o dia inteiro para o seu celular e ele estava desligado, resolvi usar da chave reserva que você me deu e vir checar se estava tudo bem com você. – explicou Ana enquanto se sentava na cama, perto de mim.
– A intenção era realmente desaparecer para o mundo, Ana. Você já procurou pensar nisso? – exasperei na direção da voz dela, pois ainda mantinha os olhos firmemente fechados.
– Vai me explicar o que houve ou eu vou precisar descobrir sozinha a razão de tanta ira assim? – ela perguntou naquele tom de responsabilidade que me fazia sentir como uma criança, sempre que ela o usava.
– Não foi nada. Não é nada. Se fosse algo, eu ignoraria propositalmente. – murmurei respondendo mais à minha consciência que à pergunta feita.
– Você é mesmo uma bobona! Mas, enfim, se você não quer compartilhar comigo, tudo bem! Só levanta e vamos logo! – ela ordenou.
– Do que você está falando, afinal? – eu perguntei honestamente, abrindo os olhos pela primeira vez desde a chegada dela.
– Err… – ela ficou sem palavras quando notou meu olhar obscuro, que tentei esconder até aquele momento. Era justamente isso que eu queria evitar. Agora era tarde demais – voltei o olhar para a janela que ficava do lado oposto do quarto.
– Você esqueceu que havia prometido me acompanhar na escolha do novo sofá? – a garota, percebendo a situação, continuou o discurso como se nada tivesse acontecido.
Por isso eu gosto da Ana, uma das minhas melhores amigas desde eu não lembro quando, mas, deve ser, no mínimo, há uns 6 ou 7 anos.
E ela tinha razão, para variar. Eu me recordava vagamente que havia prometido algo neste sentido. Mas isso foi antes de tudo. Antes de eu descobrir que vou morrer daqui a três dias…

—–
Era domingo à noite, então, por lógica, estávamos os cinco reunidos no apartamento da Ana. O Drei e o Gu jogavam alguma coisa nova no Playstation, a Ana estava na cozinha preparando alguma coisa de comer para nós e eu e Laura conversávamos na sacada do apartamento.
Em verdade, ali éramos todos amigos de longa data. Éramos quase capazes de adivinhar o que o outro estava pensando. Isso, na maior parte das vezes, era algo gostoso de sentir. Naquela noite, porém, senti pela primeira vez que esta sintonia entre nós não era algo tão bom assim.
– Recebi uma ligação do meu irmão, semana passada. – Laura começou a falar após um longo silêncio estranho, daqueles bem constrangedores.
– Que bom! Pelo que eu lembro, faz tempo que vocês não se falam, certo? – tentei continuar a conversa.
– Sim… e… – ela hesitou.
– E? – perguntei ansiosa. Parecia que alguma coisa na fala dela indicava que as notícias que o irmão trazia não eram as melhores.
– Ele pediu para que eu passasse um tempo com ele e a família dele. Eles acabaram de ter um filhinho e precisam de ajuda, já que ele e a esposa trabalham muito. – ela disse.
– Ah, entendo. Mas isso seria apenas por algum tempo, certo? Você deveria ir e ajudá-los, oras! – eu apoiei, sendo impedida de continuar quando ela me olhou diretamente nos olhos e disse:
– Ele pediu que eu ficasse por lá e trabalhasse com ele na empresa dele, para sempre! Eu seria a responsável pelos negócios, enquanto ele curte a sua “licença paternidade” e após isso.
– Oh… – eu não conseguia esboçar qualquer reação além de interjeições desconexas e sem sentido e não sabia a razão disso, o que me deixava ainda mais nervosa com a situação, que ficava pior com o fato de saber que Laura observava e parecia esperar que eu dissesse alguma coisa mais.
Foi então que Ana nos interrompeu, chamando para entrar e jantar. Saindo dali naquela noite dispensei a carona oferecida por Drei e resolvi caminhar até meu prédio, que, afinal, não era tão longe dali. Precisava alinhar os pensamentos e andar à toa sempre me permitia fazer isso.
Acabei chegando, assim, em casa, sem ter concluído nada daquela noite, a não ser o fato de que estava prestes a perder a minha melhor amiga. A amiga da qual não me separava desde a terceira série, quando, no meu primeiro dia naquela escola nova, ela me salvou de um grupo de garotinhas malvadas que pretendia me tomar a minha boneca. A amiga a quem eu não escondia nada e jamais pensei viver sem. Senti, ao me lembrar daquele olhar triste de Laura na sacada, um vazio que nunca havia sentido antes. Parecia que tinha perdido metade dos membros e ainda não havia me dado conta disso.

—–
Como a cabeça começava a doer, resolvi tomar um banho gelado e me deitar. Foi na manhã seguinte que Ana me encontrou, ainda vertiginosa em virtude da notícia da mudança de Laura.
Não adiantava negar mais, eu estava doente pela partida dela daí a alguns poucos dias. Mas, não poderia me dar ao luxo de reclamar por nada, afinal, apenas boas amigas é tudo que sempre fomos, não é algo que me dê sobre ela ou qualquer pessoa algum título de propriedade ou algo do gênero.
Levantei com algum esforço da cama e me arrumei para sair com Ana.
Chegando à primeira loja de móveis, Ana discutiu cerca de trinta minutos com o vendedor sobre a propaganda enganosa que a loja havia feito, dizendo que teriam uma liquidação de sofás naquele dia, mas não havia nenhum sofá em promoção. Após toda a cena, nenhum dos três (nem Ana, nem o vendedor da loja e nem o gerente que foi chamado pelo funcionário em pânico) mudou de opinião sobre a versão que defendia sobre a tal liquidação e assim fomos para a próxima loja.
Chegando lá, Ana parecia ter encontrado o paraíso dos sofás e sua dúvida principal deixou de ser o preço para ser a cor que mais combinava com seu apartamento. Perdida entre cores, formatos e modelos, resolveu pedir minha ajuda.
– As pessoas costumam gostar de sofás de cores bem neutras, como o bege, eu acho, Ana. – respondi um tanto distraída, um tanto sem interesse na escolha dos sofás.
– O que? Não diga isso jamais, Tati! Sofás são muito importantes, eles complementam um ambiente, são a peça principal, na verdade e sem eles uma sala não seria nada! Nada, mesmo! Salas vazias não são felizes, amiga! Não há como viver com um sofá neutro! – ela explodiu na minha direção.
– Você está bem, Ana? É só um sofá, mesmo… – respondi, à medida que me afastava dela, que parecia estar em um mau dia. Primeiro brigando com o pobre vendedor da loja, agora comigo.
Ao pisar do lado de fora da loja, de alguma forma as palavras de Ana ecoaram em minha cabeça e me fizeram encontrar a resposta que Laura desejava naquele instante: “Sem eles uma sala não seria nada! Nada, mesmo! Salas vazias não são felizes, amiga!”
Talvez a razão que me fazia pensar tanto sobre a partida de Laura, que me fazia inconsolável, que me fazia repudiar manter contato com ela apenas por telefone, email ou MSN era que…
– Pronto! Resolvi levar o bege, mesmo, eles disseram que entregarão até o fim da tarde. Agora, se você quiser, podemos ir comer alguma coisa. Tem um restaurante ótimo aqui perto! – ela convidou.
Assenti por simples reflexo, minha consciência estava a quilômetros de distância, do outro lado da cidade, onde, naquela hora, Laura estava na faculdade. O que ela estaria fazendo? Por acaso ela estaria muito brava comigo por ter sido tão cabeça-dura e insensível? Será que ela também…? Eram muitas as perguntas que dominavam meus pensamentos, mas eu continuava ao lado de Ana, agora tomando um chá no restaurante que ela tanto elogiara.
– Ana, preciso te fazer uma pergunta, mas… não estou muito certa do que perguntar… – comecei, sem qualquer coragem.
– Deixa de bobagens, nunca fomos de usar tanta cerimônia. Diga logo… prometo ser sincera, como sempre! – ela me confortou.
– Sabe… acho que… não sou como as outras pessoas… – eu disse reticente, permitindo que ela assimilasse o que eu estava prestes a dizer.
– Ainda bem que não é, minha cara! Existe tanta gente realmente ridícula neste mundo. Adoro você, por ser você sempre. – ela disse parecendo adivinhar o que estava por vir.
– Bom… acontece que… é um tanto diferente disso, que eu quero dizer – eu não queria me iludir, pensando muito – eu disse que as pessoas, as pessoas normais geralmente gostam de sofás cor bege, certo? – eu perguntei, olhando para ela com a visão periférica, pois não conseguia encarar de frente a reação dela.
– Sim… e isso? – ela insinuou para que eu continuasse.
– Eu preciso dizer que não gosto de sofás de cor bege. – confessei desejando, naquele instante, ser tragada pela terra e nunca mais precisar ver o mundo.
– Fico contente que tenha descoberto isso, mas… se assim é… por que você continua aqui? – ela deu a deixa.
– Você… Oh, Ana, amiga! – eu disse me levantando e saindo, virando a alguns passos de distância para dizer: – Obrigada, amiga!
Saindo dali eu não tinha muito tempo. Sabia que Laura estaria na faculdade até às dezoito horas e já passavam trinta e cinco minutos das dezessete horas. Eu não poderia perder um segundo sequer. Peguei o primeiro táxi e falei o endereço da faculdade. Infelizmente, naquele horário as pessoas estavam saindo dos seus empregos e isso tornava o trânsito um tanto caótico, o que me deixava a cada segundo mais apreensiva.
Começou a chover, quando o táxi parou em frente ao prédio de Ciências Sociais Aplicadas. Tomei o fôlego e entrei no hall. Perguntei na recepção onde era a sala da Laura e me foi apontada a direção. Faltavam cinco minutos para as dezoito horas e meu coração parecia que iria sair pela boca, tamanha a minha ansiedade. Na verdade, eu havia chegado até ali, mas não tinha ideia do que diria ao encontrar com Laura.
Chegando ao local onde Laura deveria estar na sala, vi que estava vazia, com exceção de três rapazes que terminavam de guardar suas coisas nas mochilas e estavam se retirando também. Perguntei a eles se sabiam se Laura havia saído há muito tempo e eles disseram que eu deveria ter encontrado com ela nas escadas. Não perdi mais tempo com eles e saí correndo em busca de encontrar Laura.
– Tati? – uma voz me chamou quando eu descia o segundo patamar.
– Laura! – reconheci, antes mesmo de me virar e confirmar.
– O que houve? Você estava me procurando? Aconteceu alguma coisa? – ela perguntou preocupada.
– Não é nada. Digo, na verdade é… – eu não tinha ideia de como começar a falar.
– Está me deixando preocupada, Tati, diga logo! – ela pediu.
– Você está indo embora! Você não pode! – eu disse sem fazer sentido.
– Qual a razão repentina que te leva a pensar isso? – ela perguntou mais calma.
– Você não pode me deixar! – eu expliquei.
– Mas não vamos ficar sem nos falar, Tati! Sempre teremos telefone e internet, simples assim! – ela tentou me confortar e prosseguiu – Era só isso? Não tinha razão para tanto desespero!
Eu não sabia o que falar. Digo, até sabia, mas…
– Agora eu preciso ir, tudo bem? Fiquei de encontrar uns amigos num barzinho para uma despedida do pessoal da faculdade. – ela disse saindo pela porta principal do prédio e entrando na impiedosa chuva que resolveu cair repentinamente.
Fiquei sentada ali nos degraus da escada sem saber como agir. Não aconteceu como eu imaginara. Aliás, nem sei ao certo o que eu queria fazer ali. Foi então que a verdade dos meus sentimentos me apunhalou mais uma vez: com a cabeça apoiada no corrimão da escada, fechei os olhos e quando fiz isso só uma imagem apareceu em minha mente e uma certeza deu coragem aos meus pés.
Levantei e saí correndo na direção que Laura havia tomado. Ela não deveria ter ido muito longe naquela chuva. Avistei-a a certa distância e chamei por ela:
– Laura, espera! – mas fui ignorada.
– Laura, estou te chamando! – insisti.
– O que houve? O que você quer comigo, afinal? – ela exigiu, gritando àquela distância.
– E-e-eu… – gaguejei novamente, descobrindo que preciso aprender a me expressar melhor em situações de pressão.
– Sabia que não era nada. Não poderia ser! Me deixa em paz, Tati! – ela disse voltando a caminhar.
A sensação de vê-la distanciando-se de mim, como faria para sempre daqui algum tempo, me fez gritar a plenos pulmões o nome que ela tanto repudiava:
– Laura Hannah Almeida! Eu te amo e não posso deixar que você me deixe a viver sozinha sem tua presença, sem seus sorrisos, sem nossas discussões em que você está, geralmente, com a razão, sem seu jeito peculiar de me repreender apenas com o olhar, quando acha que eu fiz algo de errado. Laura, eu preciso de você! Laura, eu te amo!
Isso fez a garota parar de imediato e voltar-se para mim:
– Eu também te amo e sempre te amei, sua boba!
Corri em direção dela para o abraço que ela ofereceu e ali no meio da chuva, no meio de todos os passantes que assistiam à cena, tomei dela o melhor beijo de toda a minha vida.
Ok, ok, talvez não seja o melhor, até porque, após aquele tivemos vários outros, afinal, hoje estamos namorando e continuamos morando na mesma cidade. Laura foi, sim, ajudar o irmão a cuidar do novo filho e da empresa, mas por apenas 6 meses e eu estava com ela a todo o tempo. Após tal período a família se reajustou ao ritmo normal e como Laura recusava-se a mudar de cidade, o irmão fez melhor por ela (e por mim, por tabela), abriu uma filial aqui na cidade e assim não precisamos nos afastar de nossos amigos de longa data.
Aliás, a Ana acabou não comprando o sofá de cor bege. Após a minha saída do restaurante, ela voltou à loja e resolveu comprar um outro sofá, de cor cacto imperial de Valência, cor que os meninos insistem em chamar simplesmente de “verde”. Mas a Ana mantém firmemente a sua convicção, segundo ela sofás são muito importantes.
Hoje, eu concordo com ela, de uma estranha maneira.

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