Álcool, cigarros e confissão

Aviso legal: Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual, sendo vedada a utilização por outros autores sem minha prévia autorização.
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Estava mais uma vez parado diante da porta do apartamento, considerando por um momento se deveria realmente entrar ali ou tomar uma resolução que me fizesse algum bem e jamais voltar àquele lugar. A despeito da decisão que pudesse tomar, a porta foi aberta pelo outro morador.

Vou comprar cigarros. Volto já.” Raul disse após recuperar-se da surpresa curiosa em me ver parado no corredor.

Tudo bem…” Respondi em tom miúdo, como se suprimisse o choro que ameaçava sair.

Raul era um jovem alto, moreno, popular entre as mulheres, divertido, bonito e a razão de cada suspiro meu, um estranho cara baixo, ruivo e introvertido. O que nos separava não era simplesmente a diferença na personalidade, mas por Raul jamais ser capaz de saber o que eu sentia por ele.

Tomei um banho gelado para espantar o calor, não estando completamente certo se aquilo era conseqüência climática ou decorrência do encontro que ocorrera há alguns minutos na porta do apartamento. Desistindo de encontrar as respostas na água, resolvi sair dali e jogar-me no sofá até a chegada do outro. Ouvindo a música tranqüila que vinha do apartamento vizinho acabei encontrando o sono sem notar.

****

Ei, acorda!” Era Raul quem chamava tocando de leve meu ombro.

Ah, é você.” Acordei ainda carregado de sono, esfregando os olhos para ver se isso ajudava, não obtendo sucesso.

Preciso falar com você, Otto… eu…” Raul iniciou alguma coisa, quando percebi seu hálito.

Você bebeu!” Reclamei em tom infantil.

Talvez, um pouco… não importa. O que eu preciso dizer não pode ser adiado…” Ele falava comigo à distância que somente é permitida para um casal prestes a se beijar.

A comparação fez minha cabeça leve por um momento e levantei-me para espantar a idéia que ali formou pretensão.

Não vá para longe de mim!” Raul reclamou, levantando-se também, e segurando um dos meus braços.

O que houve com você? Me solta!” Pedi, sem intenção de ser obedecido.

Preciso conversar com você, Otto.” Ele dizia sem atropelar as palavras, o que seria esperado de um característico discurso de bêbado.

Amanhã você pensa nisso. Por enquanto você precisa é de um banho, um café e uma cama.” Falei em tom decisivo indo na direção da cozinha.

O banho e a cama eu até aceito, desde que você esteja lá comigo…” Raul disse provocante, fazendo-me estacar onde estava sob pena de sentir a fraqueza dos tornozelos se tentasse andar. Eu tremia com aquelas palavras.

Você está diferente. Venha cá…” O mais velho disse puxando-me pela mão.

Você não sabe o que está fazendo, me solta.” Tentei me livrar dos seus braços e beijos que ele insistia em deixar por todo o meu rosto.

Quando senti sua barba ainda por fazer tocando minha pele isso causou em mim um suave arrepio, e nele, um sorriso torto.

Verbalize o que sente.” Ele sussurrou ao meu ouvido me fazendo desistir de resistir e me entreguei ao torpor em que a mente já havia sucumbido, comprovando isso por um gemido que saiu sem permissão. Enquanto ele encaminhava os beijos na direção do pescoço, ia desabotoando a camisa que eu vestia e quando me deixou livre dela, passou a marcar com beijos todo meu corpo, com urgência. Quando sua língua passou por meu mamilo, eu percebi que havia perdido a consciência e me deixei levar de vez.

****

Quando ambos estávamos exaustos, Raul resolveu acender um cigarro. No quarto escuro a fumaça começava a se fazer presente e o cheiro era intoxicante. Cheiro de Raul.
Muitas foram as vezes em que eu notei ter me perdido na observação de como ele fumava. A forma com que posicionava o cigarro entre os dedos, levava à boca em intervalos curtos e a fumaça que deixava sair em seguida. Não sabia o que desejava mais: ser o cigarro para tocar a sua boca ou ser a nicotina para ser seu vício. Em resumo, tudo o que eu sempre quis foi pertencer a Raul e aquilo enfim havia acontecido, contudo, de alguma forma, algo dentro de mim parecia irresolvido, instável.

Rolei por cima de Raul, com fim de alcançar a mão com que ele segurava o cigarro, e dei uma tragada. A fumaça fez mal aos meus pulmões ao que tossi brevemente, levando o outro a uma risada.

Embaraçado, levantei e caminhei na direção da janela do quarto, agradecendo a penumbra do cômodo que ocultava a insegurança que tinha por estar nu diante dele, por mais irônico que isso fosse diante do que havia acontecido instantes antes.

A brisa que entrava pela janela era refrescante e logo levou a essência de Raul para longe dali. Sentia que cada centímetro do meu corpo estava envolvido por uma energia revigorante, mas ainda assim, algo parecia errado.

Volte para a cama.” Raul pediu ao meu ouvido ao me envolver com seus braços. Isso causou ao mesmo tempo prazer e medo.

Do que eu tinha medo?

Vamos repetir um pouco daquilo…” Ele disse, rindo-se da própria proposta.

Quando tentei esboçar alguma reação, abrindo a boca sem saber ainda o que dizer, ele aproveitou-se da oportunidade e aproximando-se de mim, roubou-me um beijo.

Neste momento, apesar de inapropriado, lembrei de uma amiga que me dizia convictamente que não existe tal coisa chamada “beijo roubado”, afinal, se a pessoa se deixou beijar, não foi roubado. Foi por isso que eu correspondi. Reconhecer isso fez lágrimas romperem a minha vontade e mostrarem todo o meu sentimento.

O que houve? Te machuquei ou alguma coisa assim? Você não está bem?

Certo, estava ali a pessoa mais perfeita da minha vida, diante de mim, visivelmente preocupado comigo e tudo que eu conseguia era chorar. Apoiei-me em seus ombros, abraçando seu pescoço e quando minhas mãos alcançaram sua nuca, afaguei carinhosamente o cabelo de Raul. Era melhor do que eu havia imaginado todo este tempo.

É que…” Não conseguia expressar meus pensamentos entrecortados por soluços.

É que…?” Ele incentivou a continuação, ainda mantendo o abraço, tentando me acalmar.

É que não sei como agir… como se deve agir quando todas as suas fantasias se concretizam e você tem medo de acordar, percebendo que aquilo foi apenas mais um sonho?” Enquanto eu falava, lágrimas rolavam por meu rosto.

Não sei descrever o quanto eu absolutamente odeio ver as suas lágrimas.” Ele disse enquanto secava as gotas com seus beijos. Tornando o abraço mais apertado, ele continuou dizendo que:

Achei que não fosse necessário dizer mais nada depois do que fizemos, mas se você ainda tem dúvidas, eu vou dizer com todas as palavras o que sempre passa pela minha cabeça. Algo que eu tento evitar e não consigo. Desde a primeira vez que te vi, desde quando você apareceu por aqui, respondendo ao anúncio do jornal em que eu procurava alguém para dividir o apartamento, eu notei que precisava ter sua boca na minha, abraçar teu corpo frágil e poder te proteger dos males do mundo. Você, sempre tão sensível, precisando de alguém para evitar que seu mundo de fantasia seja superado por qualquer dose de realidade. Você ouve meus chamados nos seus sonhos? Não? Então vou sonhar com mais convicção. Não, o que eu quero é deixar de sonhar, quero que você seja meu nesta realidade e em todas as demais. Tudo que consigo pensar é no quanto eu te…

A certeza com que Raul despejava todas aquelas palavras não me dando chance de assimilar o seu significado, fizeram o choro voltar, mostrando que não era ele quem estava bêbado. Por isso, não pude permitir que ele completasse a frase, sabia o que viria em seguida e o interrompi, continuando o beijo.

A verdade é que não importava mais. Não importava se aquilo era um sonho, eu iria aproveitar cada segundo daquela ilusão, pois apesar de não ter bebido uma dose de álcool, o bêbado ali era eu. Eu estava bêbado com tudo o que Raul estava disposto a me oferecer, eu estava completamente viciado. E não tinha nenhuma vontade em me reabilitar.

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