Sereia

Sabia que não deveria ter subido tão alto, já que tinha medo de altura. Sabia que não deveria ter avançado tanto por um galho tão fino. A percepção desses fatos, bem como de não saber nadar e que não havia ninguém de companhia que pudesse lhe prestar socorro, foram os últimos pensamentos que precederam à inconsciência.
Acordou de um pulo, sendo contido pela gentil moça vestida de branco e calçados sem salto. Ela assegurou que o médico iria dentro de pouco tempo explicar como ao tentar pegar uma dessas flores que nascem no Grande Lago quase virou Narciso. Na verdade, a explicação concisa da enfermeira foi o suficiente pra que ele entendesse que quase se afogara por uma coisa à toa, o que permitiu que devaneasse a respeito de como fora resgatado, já que desde o acidente há dois anos nas margens do lago, ninguém – além dele – da cidade se atrevia a pôr os pés lá.
Realmente, após questionar toda a equipe médica e aos próprios pais, percebeu que ninguém creditava o seu salvamento a algo mais que a Providência. Contudo, ele consegiu com grave esforço – posto não estar completamente recuperado – distinguir no meio daqueles confusos pensamentos que permearam seu cérebro à medida que a água fazia o mesmo pelos seus pulmões, lembrar de uma figura estranha de longos cabelos avermelhados e olhos perolados nadando ao seu encontro.
Ele, pouco crente em divindades, no ápice dos seus 12 anos resolveu acreditar em sereias. Ao revelar tal conclusão foi submetido a mais uma longa série de exames e quanto mais se firmava na ideia da sua sereia salva-vidas, mais recebia olhares pesarosos. Assim, diante de um psicólogo com óculos cuja armação parecia querer estrangular o espaço entre as orelhas do médico, ele preferiu mentir e toda a história não passou de um leve estresse decorrente do trauma sofrido.
Passado algum tempo virara piada entre os guris da vizinhança e pouco a pouco foi perdendo os poucos amigos de pique que tinha.
Resignou-se, por isso, a guardar para si tudo relativo ao acidente que quase lhe tirara a vida na infância, apesar de ter-se formado biólogo marinho renomado por conta dessa pequena e inafastável inspiração (algo que jamais confessaria).
Certo dia, esperando pelo metrô, esquecido de carregar o celular, se dispôs a observar os passantes. Acima do subsolo chovia torrencialmente e no meio de uma multidão de capas de chuva que descia as escadas, seu olhar melancólico deu de encontro com o de uma moça ruiva com corte à channel e olhos perolados que jamais esqueceu.

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