Sabedoria para distinguir

Na “Oração da Serenidade” usada por muitos grupos de apoio como A.A., por exemplo, sempre empaco na parte que clama por “sabedoria para distinguir umas das outras”. No caso, para quem nunca ouviu dizer, o “umas” se refere às coisas que podemos mudar e o “outras” às que não podemos. Pois bem, vale comentar que tenho inveja destes bons sábios.
Desde crianças nos perguntam nossas pretensões para a vida adulta e durante toda a vida observam nossa aptidão para cumprir ou não estas metas estabelecidas pelo impulso ingênuo primário. Pelos deuses, tem gente que persegue estes ideiais com tanto afinco que se frustram, porque não existem pôneis rosa ou solução simples para a paz mundial. Tudo bem, estou exagerando aqui, mas há de se firmar algo dogmático: neste vai e vem em busca dos sonhos infantis a expectativa é a mãe da decepção.
Quanto mais você se esforça, quanto mais luta e mais deseja para que o resultado aconteça, bem, maiores são as chances de tudo dar errado. (Também aumentam as probabilidades positivas, mas este não é um texto motivacional.)
É verdade, também, que quem nunca almejou sair do lugar ocupa duas posições opostas de forma conciliatória: tem sem uma gota de suor todo o sucesso e todo o fracasso em si no mesmo lugar. Literalmente.
Contudo (e resumindo a teoria em prol de uma síntese palpável), achei um jeito de quebrar o ciclo vicioso da expectativa e ainda assim sair do lugar. Muitos podem chamar de resignação, todavia, vislumbre a justiça em jogar panos mornos nas testas cansadas dos inglórios por simplesmente mostrar a eles que dá para viver de outro jeito.
Você não precisa ser Presidente da República. Meu deus, você não precisa sequer ser presidente da associação de moradores do seu bairro.
Você pode ser lojista, sapateiro, fazer artesanato hippie ou qualquer outra coisa.
Pare de correr atrás de pôneis rosa.

Poesia: Bem no fundo – Paulo Leminski

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.