Quote notável # 18

“Ouch, I have lost myself again
Lost myself and I am nowhere to be found”

(Breathe me – Sia)

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Mulher Maravilha

“A garota dinamarquesa” que dá nome à obra não é Lili, mas Greta. A história não é sobre uma das primeiras pessoas a fazer a cirurgia de transgenitalização, mas da mulher que teve de aprender a ser parceira daquela.
Conheci primeiro o filme e depois o livro. Na verdade, não cheguei a ver o longa, apenas vi críticas a respeito dele e isto fez a minha curiosidade saltar o muro. Busquei o ebook e logo topei com ele na capa com o pôster lindíssimo, diga-se de passagem.

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Acho que março vai ser o mês dos limites. Li “50 shades” (limites sexuais) e agora esta história que romanceia fatos reais (o que intensifica tudo), como o próprio autor afirma.
Limites, porque é aí que esbarra a fidelidade de Greta (e, num nível mediato, a sua própria felicidade). A primeira parte da narrativa é pura dor. A mulher vê o marido desabrochar em roupas e modos femininos e se questiona em vários momentos sobre qual o seu papel e como desempenhá-lo. Nunca deixa de prestar seu apoio irrestrito como se Einar fosse, na verdade, um filho, sua cria, sua responsabilidade, não seu marido. (Aviltante ver uns e outros falando que ela apoiou a afirmação de Lili como meio de pintar e vender seus quadros, porque, pelamor!)
Esta garota dinamarquesa é uma mulher maravilha, a meu ver. Diana, entregue o elmo! Imagino a confusão interna que a verdadeira Greta (Gerda Wegener) deve ter enfrentado. Não em relação à sociedade, já que pouco se importava com ela. Contudo, ao pôr a cabeça no travesseiro que receios não devem tê-la tomado!
Saída de uma viuvez infeliz e traumática quanta insegurança não deve ter sentido ao ajudar o marido a libertar-se de si mesmo e tornar-se mulher!
E, mesmo sem pedir ajuda, mas em evidente sinal de desespero, viu-se sob o apoio constante do irmão Carlisle.
Preciso dizer que amo Carlisle (e não só por lembrar o seu homônimo vampiro), porém certamente por todo seu altruísmo e boa vontade! Um jovem de espírito tão empático quanto o da irmã, sem dúvidas.
É interessante ver como diferentes médicos deram diferentes diagnósticos sobre o que se passava com Einar numa época em que não existia o vocábulo “transexual”. E, neste ponto, eu gostaria de ler o diário original de Wegener para sentir a medida exata em que flutuava a sua melancolia. É evidente que até encontrar o Dr. Bolk (também nome fictício) ele sofria de depressão, contudo, parecia – o livro dá a impressão de – acreditar que Lili era, no fundo, um mal-estar que algum dia passaria se ele não arremetesse muita atenção. (A despeito de toda a liberdade que sentia ao colocar o colar em torno do pescoço frágil e as luvas protegendo os dedos pálidos.) O próprio Einar teve de aprender a aceitar Lili como alguém, não algo.

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Lili era linda.

Ficção

Talvez os dois pontos que mais me irritem sobre o livro (do qual não tenho nada, nada a reclamar) sejam: a falta de contextualização histórica e o final tosco.
Para quem, como eu, primeiro leu o livro e depois procurou a respeito de Lili Elbe, é desorientador saber que a vida dela – na época – foi noticiada na mídia internacional e não intimista como o autor resolveu contar. Jurava que além dos médicos, Greta, Hans, Henrik, Anna e Carlisle, ninguém mais sabia sobre o sofrimento de Einar e o nascimento e afirmação de Lili. Que engano!
O final é poético e comovente, mas deixa a imaginação vagar pro lado mais sonhador. Eu quase achei que a última cirurgia tinha dado certo até procurar no Google e perceber que aquilo a matou.

Enfim…

… só posso dar nota 4 em 5, de tão perfeito.

Cinquenta tons de sono

Estava pensando que esta ideia de fazer resenhas de livros é overrated. A maioria das pessoas não lê porque já conhece o livro ou por não querer spoilar, se não conhece. Logo, desnecessárias.
Muito melhor falar das minhas impressões, o que senti e coisas relacionadas. Inclusive, implementa um caráter a mais de personalidade aos relatos.
Não que isto me impeça de fazer resenhas tradicionais num sábado qualquer, afinal, o blog é meu.

Para não dizer que enganei qualquer pessoa, já deixo o disclaimer: não é bacana assistir alguém criticando duramente algo de que gostamos, daí surgem duas opções, quais sejam: a) ignorar e seguir com a vida; b) ouvir e aceitar ou não e seguir com a vida. (Sou partidária da segunda opção, mas cada um no seu quadrado, né.) Então, pense nisto antes de despejar ódio contra mim ❤

Como não sou dada a acompanhar a moda literária, na época do début de “50 shades” pouco me interessei em tomar conhecimento específico sobre ele. Não era uma boa época na minha vida, pra ser sincera.
Dia destes não tinha nada melhor pra fazer e estava passando a famigerada adaptação na tv. Não joguei a oportunidade fora.
Foram duas horas bem desperdiçadas. Gastei minutos que não voltam mais!
Resumindo o enredo em uma frase: muito cu doce pra pouca cena BDSM. (Aliás, pra filme erótico teve bem pouca cena de sexo.) Consigo entender porque a comunidade que aprecia este tipo de prática se ofendeu com a alusão mesquinha à realidade. Até eu me irritei, caramba! As regras de segurança são totalmente ignoradas, ou seja, não passava de um cara batendo numa mulher. Isto me leva pensar que se o tal Christian Grey não fosse rico as mulheres do mundo todo provavelmente não teriam se apaixonado por ele.
Imagine a cena: homem pobre batendo numa mulher e usando palavras fortes. No mínimo, as Ong’s que protegem os direitos das mulheres teriam se manifestado.
Assim é que atingi altos níveis de ira com a produção até que resolvi baixar a cabeça e analisar sem pré-conceito. Admito, é um filminho “okay” pra se passar umas horas. Tem uma trilha sonora bacana, inclusive.
E veio a ideia, afinal: ler o livro pra comparar. (Mostrem-me uma adaptação que foi fiel a um livro e assino um cheque nominal com quatro dígitos. O livro tem que ser melhor – pela lógica.) Até porque, se censuraram a capa nas vitrines de algumas livrarias, é de se esperar que tivesse ~alguma coisa~ pesada nas entranhas da história.
Queria ver o que causava tanto frisson.
Queria ver coisas tão tortuosas que me fizessem corar e fechar o livro.
Queria obscenidades!!! (E palavrões mal colocados não fazem as vezes de uma real “dirty-talk”, se posso comentar.)
Ah, meu terrível engano.
Como já tinha visto o primeiro filme, resolvi ler o segundo livro. Não sou de fazer isto, mas como estava lendo por curiosidade mórbida, não fiquei com a consciência pesada.
Para minha infelicidade, Christian não poderia ser um cara mais romântico; Anastasia não poderia ser mais indecisa e fresca; os demais personagens são parcamente explorados.
Entendo que para quem está acostumado a Nicholas Sparks seja um choque imaginar que práticas sadomasoquistas sejam capazes de fornecer tanto prazer. Contudo, isto (o choque) seria possível se o livro tivesse sido publicado há mais de 15, 20 anos. Hoje em dia não é obtuso, e certamente não é vanguardista usar algemas e outros brinquedos sexuais.
Aliás, sex shop é um ramo respeitável de mercado que move uma quantia significativa por ano.
Sinceramente, não vi nada de mais no jeito que o Sr. Grey encontra prazer e poderiam editar as partes em que a Ana discute consigo mesma sobre “não ser suficiente” – Jesus, é drama demais pra uma pessoa só.
No mais, posso dizer que já li livros mais “picantes”. E digo isto sem querer fazer pose aqui.

Spoiler a seguir

A parte que talvez pudesse salvar o enredo – o Complexo de Édipo – recebe pouco espaço e atenção. Para um leitor desavisado parece uma tolice exagerada. Quando, na verdade, a patologia clínica é esta, não a parte com uso de chicotes de forma consensual entre adultos capazes.
E mesmo assim o tom da história não mudaria muito, eu creio. Kafka à beira-mar foi decepcionante neste ponto, por exemplo.

Tão blasé quanto qualquer best-seller romântico

Ai, meus deuses do Olimpo! Tem até pedido de casamento totalmente tradicional. Com flores. Com bênção dos pais.
E é aqui que eu sacramento minha falta de vontade de discutir esta saga pseudo-erótica.

Lembro do meu professor de filosofia na faculdade que dizia que pessoas com problemas têm dificuldade até na hora de criar suas fantasias. O livro alcança seu propósito recreativo aí, talvez. Apesar de toda a falta de referência na realidade, serve de base pra casais sem imaginação que queiram cores além do bege na relação.

Veredicto

Nota: 1/5 (todo livro já publicado merece ao menos isto).
E, porra, E. L. James deve estar podre de rica agora!