Mulher Maravilha

“A garota dinamarquesa” que dá nome à obra não é Lili, mas Greta. A história não é sobre uma das primeiras pessoas a fazer a cirurgia de transgenitalização, mas da mulher que teve de aprender a ser parceira daquela.
Conheci primeiro o filme e depois o livro. Na verdade, não cheguei a ver o longa, apenas vi críticas a respeito dele e isto fez a minha curiosidade saltar o muro. Busquei o ebook e logo topei com ele na capa com o pôster lindíssimo, diga-se de passagem.

483463

Acho que março vai ser o mês dos limites. Li “50 shades” (limites sexuais) e agora esta história que romanceia fatos reais (o que intensifica tudo), como o próprio autor afirma.
Limites, porque é aí que esbarra a fidelidade de Greta (e, num nível mediato, a sua própria felicidade). A primeira parte da narrativa é pura dor. A mulher vê o marido desabrochar em roupas e modos femininos e se questiona em vários momentos sobre qual o seu papel e como desempenhá-lo. Nunca deixa de prestar seu apoio irrestrito como se Einar fosse, na verdade, um filho, sua cria, sua responsabilidade, não seu marido. (Aviltante ver uns e outros falando que ela apoiou a afirmação de Lili como meio de pintar e vender seus quadros, porque, pelamor!)
Esta garota dinamarquesa é uma mulher maravilha, a meu ver. Diana, entregue o elmo! Imagino a confusão interna que a verdadeira Greta (Gerda Wegener) deve ter enfrentado. Não em relação à sociedade, já que pouco se importava com ela. Contudo, ao pôr a cabeça no travesseiro que receios não devem tê-la tomado!
Saída de uma viuvez infeliz e traumática quanta insegurança não deve ter sentido ao ajudar o marido a libertar-se de si mesmo e tornar-se mulher!
E, mesmo sem pedir ajuda, mas em evidente sinal de desespero, viu-se sob o apoio constante do irmão Carlisle.
Preciso dizer que amo Carlisle (e não só por lembrar o seu homônimo vampiro), porém certamente por todo seu altruísmo e boa vontade! Um jovem de espírito tão empático quanto o da irmã, sem dúvidas.
É interessante ver como diferentes médicos deram diferentes diagnósticos sobre o que se passava com Einar numa época em que não existia o vocábulo “transexual”. E, neste ponto, eu gostaria de ler o diário original de Wegener para sentir a medida exata em que flutuava a sua melancolia. É evidente que até encontrar o Dr. Bolk (também nome fictício) ele sofria de depressão, contudo, parecia – o livro dá a impressão de – acreditar que Lili era, no fundo, um mal-estar que algum dia passaria se ele não arremetesse muita atenção. (A despeito de toda a liberdade que sentia ao colocar o colar em torno do pescoço frágil e as luvas protegendo os dedos pálidos.) O próprio Einar teve de aprender a aceitar Lili como alguém, não algo.

1451748884_931165_1451749870_sumario_normal

Lili era linda.

Ficção

Talvez os dois pontos que mais me irritem sobre o livro (do qual não tenho nada, nada a reclamar) sejam: a falta de contextualização histórica e o final tosco.
Para quem, como eu, primeiro leu o livro e depois procurou a respeito de Lili Elbe, é desorientador saber que a vida dela – na época – foi noticiada na mídia internacional e não intimista como o autor resolveu contar. Jurava que além dos médicos, Greta, Hans, Henrik, Anna e Carlisle, ninguém mais sabia sobre o sofrimento de Einar e o nascimento e afirmação de Lili. Que engano!
O final é poético e comovente, mas deixa a imaginação vagar pro lado mais sonhador. Eu quase achei que a última cirurgia tinha dado certo até procurar no Google e perceber que aquilo a matou.

Enfim…

… só posso dar nota 4 em 5, de tão perfeito.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s