Esquizofrenia – Conto III

Aviso geral: Trata-se de um conjunto de contos originais que levam o mesmo título “Esquizofrenia”, mas não necessariamente passados nos mesmos locais e vividos pelos mesmos personagens. Só uma é constante: a esquizofrenia deles.
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual, sendo vedada a utilização por outros autores sem minha prévia autorização.

xin_59030723175456124278173

Conto III

Nada numa mão, um cigarro na outra. Uma ilusionista que, de magia, só conhecia a de ser enganada.

Durante toda a sua vida, que acabara de ultrapassar a maioridade, haviam advertido sobre os males da nicotina que deixaria marcas não apenas nos dedos, mas também na boca, na laringe, nos pulmões e mais uma dezena de consequências por todo o organismo. Já não se importava mais. O fumo, tal qual a bebida e os medicamentos não passavam de uma tentativa barata de tirar a vida aos poucos. Um sofrer sem sofrer para deixar de sofrer, enfim.

A realidade é que trocaria aquele bastão malcheiroso que levava na boca por uma bala de menta, a mão vazia por dedos entrelaçados e o coração partido por um pouco de sentido.

Sentido… já não sabia mais o que isso significava. Pelo menos, ali na brisa gélida da cobertura do prédio não sabia distinguir. Lá embaixo os faróis dos poucos veículos que ainda circulavam àquela hora da madrugada pareciam pequenos vagalumes. Ouviu longe algum babaca chamando uma mulher de “vadia”, o que foi seguido de um pequeno estampido. Um calafrio lhe percorreu a espinha.

Elevou o punho à altura dos olhos para ver as horas e só ao vê-lo vazio lembrou que havia deixado o relógio em casa, em cima da mesinha de cabeceira, do lado de Neruda e alguns analgésicos. Nunca mais voltaria ao seu apartamento.

Subiu o degrau que consistia o parapeito. O reconhecimento da altura a fez sentir vertigem.

Olhou novamente o punho, desta vez a parte interior e o da outra mão. Lá passou o indicador sobre o relevo da tatuagem que clamava por “verdade”. Lembrava do dia em que havia entrado no estúdio que ficava no fim da sua rua e pedira quase em pranto por aquela marca em sua pele, fazendo o tatuador de apelido “Mutante” quase chorar junto. Tudo em si era falso: o cabelo tingido e alisado quimicamente, as lentes de contato, já não levava nas costas uma marca de nascença em razão de uma pequena plástica, as unhas roídas eram cobertas por plástico vermelho. Até o casaco de peles que usava era falso, bem como o sapato de couro, apesar disso a confortar pelo menos um pouco dentre tanta futilidade. Assim, a única coisa que ainda a lembrava de que era real eram aquelas letrinhas pretas em fonte Vivaldi.

Lágrimas escorriam mornas pela face fria, fazendo os olhos arderem pelo choque térmico experimentado.

Pensou no que ainda a prendia: seu peixinho de aquário tinha morrido de estresse, seu último “alguma coisa” havia fugido após ouvir um “te amo”, amigos só a procuravam quando precisavam de grana ou da sua influência, seus pais haviam desistido de tentar há muito tempo e dos vizinhos não sabia sequer o nome.

Pensou no que queria: voltar ao ponto de ônibus e ir pra escola vestindo aquele uniforme antiquado com saia de pregas e meias três quartos. Contudo, foi logo assaltada pela lembrança da sua real infância que envolvia Cinderelas perdendo o salto em raves e sapos continuando a ser sapos, mesmo depois de beijados, mesmo sendo aparentemente humanos.

Olhou para o negrume do céu nublado sem estrelas e sem Lua, rindo amargamente pensando que não funcionava esta história de “telefone sem fio”. Da seguinte forma: se deus existisse, era por certo uma velhinha surda e havia confundido seu pedido de “um pouco de malandragem” por “um pouco de sacanagem”. Era só isso que tinha levado até agora. Só havia se fodido, sem flores ou café. Já havia deixado de acreditar nas declarações românticas.

Jogou o cigarro e viu a pequena brasa apagar-se durante a queda. Em seguida, lançou o corpo, com uma ponta de arrependimento passando pela sua mente. Esticou a mão na ilusão de alcançar algum apoio. Era tarde, deixou-se cair.

Acordou na manhã seguinte com o sol queimando sua pele e sentindo cheiro de fritura que lembrava a lanchonete onde sempre fazia as refeições. O inferno tinha cheiro de óleo queimado. O esforço para abrir os olhos fez a cabeça latejar, fazendo-a reconhecer que sua punição seria uma ressaca eterna. A luminosidade excessiva parecia pretender queimar sua retina, resistiu.
Uma pena branca caiu sobre a sua cabeça fazendo um balé quase mágico. Ouviu o arrulhar de um pombo e levantou-se olhando em volta notando que ainda estava na cobertura do prédio e pela movimentação na avenida, já era por volta de meio-dia.

Desceu as escadas, foi viver.

Esquizofrenia – Conto II

Aviso geral: Trata-se de um conjunto de contos originais que levam o mesmo título “Esquizofrenia”, mas não necessariamente passados nos mesmos locais e vividos pelos mesmos personagens. Só uma é constante: a esquizofrenia deles.
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual, sendo vedada a utilização por outros autores sem minha prévia autorização.

dripping-faucet

Conto II

O barulho irritante das gotas d’água que atingiam o ralo da pia já durava um tempo incontável, fazendo a minha cefaléia aumentar gradativamente. A dor que martelava na parte inferior da nuca parecia apostar com algum chato quem contava mais rápido em progressão geométrica. E ela estava ganhando, me deixando com pena do chato e com a vontade insuportável de tirar fora tudo acima do pescoço.

Como algum grau de racionalidade ainda tomava conta das minhas ações, não era possível me auto-decapitar ou cometer suicídio, como preferir, mas devo apontar que o último termo sempre provocou uma expressão de reprovação do velhinho das quartas-feiras. Sabe qual? Aquele! Aquele que fica na confortável poltrona preta enquanto eu mancho o veludo do divã cor de vinho com lágrimas e memórias de um tempo que jamais quis lembrar.

O barulho da água encontrando o metal parecia ficar mais alto a cada segundo ou talvez fosse coisa da minha mente, contudo, eu posso quase afirmar que em algum momento o repicar molhado e frio pareceu sussurrar alguma mensagem.

Parei de escrever no caderninho e olhei para a porta do banheiro, como se de lá fosse sair alguém com alguma resposta, mas eram apenas fantasmas de pensamentos, meus velhos conhecidos. Voltei os olhos na direção da página parcialmente preenchida em uma letra pouco compreensível, que não respeitava as linhas e parecia querer marcar o grafite em mogno, tamanha a força que imperceptivelmente aplicava na escrita.

Sinceramente, nunca entendi as razões do velhinho ao me incentivar a escrever nestas noites insones quando cansava de virar na cama procurando o sono, sem conseguir encontrá-lo. Assim, entre lençóis amarrotados eu cruzava as pernas como se fosse meditar, mas, na verdade, não fazia mais que rabiscar algumas páginas de ilusões. Às vezes histórias, às vezes contos, às vezes a minha própria vida. O segredo da tarefa era que a minha mente perturbada jamais me permitiu diferenciar qual página era dedicada a cada um destes tipos de texto e era nisso que o velhinho paciente me ajudava. Fazia 6 meses ou, quem sabe, um ano ou dois que eu o visitava nas quartas, enfim.

Parei de escrever novamente, tendo certeza que os pingos incessantes agora chamavam o meu nome. Atravessei a cama como o faz uma criança que não quer pisar no chão e dar a volta e caminhei a passos lentos na direção do banheiro. Abri ao máximo a porta e fiquei alguns instantes a observar a pia causadora de tanta dor.

A realidade é que a pia em si não era o problema. Este advinha das gotas teimosas que caíam da torneira provocando um barulho ensurdecedor naquele silêncio em que meu pequeno apartamento quarto-sala deveria viver mergulhado. Abandonei de vez, a maçaneta e me coloquei diante da pia como se interrogasse mentalmente à torneira a razão de me ferir com aquelas gotinhas infelizes.

Por um lapso de tempo, como se fosse possível, pude notar que, ao invés da torneira, quem respondia eram as próprias gotinhas. Como eram várias e falavam ao mesmo tempo, a sua voz era comparável a de um coral tentando ler um texto, ao invés de cantá-lo. Quase medonho e quase belo. Elas diziam que fazia parte de toda a encenação criar-me a dor de cabeça, como se fosse um esporte maldoso. Assim que a resposta tão nítida tocou nos meus ouvidos eu indignei-me com o objetivo tão vil e abri de todo a torneira, deixando que o fluxo de água espirrasse ao bater nas paredes da pia, molhando a camisola que eu vestia. O pesar da ação bateu na minha consciência, me levando a usar alguns lenços que haviam caído do cesto de roupas para empoçar a água na pia, quando esta encheu-se a ponto de transbordar, fechei a torneira com força.

Não havia mais gota alguma e nem som algum. Não havia nada. Juntei algum fôlego nos pulmões e mergulhei o rosto na água da pia. Em algum momento o ar começou a faltar e perdi a consciência.

Acordei na cama com os raios de sol da tarde batendo no meu rosto e ainda ouvindo o barulho das gotas d’água pingando da torneira da pia do banheiro, na mesinha da cabeceira da cama, o diário completamente em branco e já acumulando poeira na capa.

Esquizofrenia – Conto I

Aviso geral: Trata-se de um conjunto de contos originais que levam o mesmo título “Esquizofrenia”, mas não necessariamente passados nos mesmos locais e vividos pelos mesmos personagens. Só uma é constante: a esquizofrenia deles.
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual, sendo vedada a utilização por outros autores sem minha prévia autorização.

umbrella-rain-downtown

 

Conto I

“Dizem que o poeta é um fingidor, mas eu sempre discordei. Afinal, como pode uma pessoa que tem o poder de escrever, se conformar em criar mentiras se pode expor a mais estéril realidade?”

O pensamento me acompanhava enquanto o calor que saía do metal em forma de vapor atingia o meu rosto. Aquela mistura de odor de combustível, trânsito e multidão me deixava cada vez mais tonta, enjoada… enojada.

De repente, uma vontade destas que tomam conta dos nossos sentidos me guiou para longe dali em disparada. Corria, corria, corria desvairadamente como se a corrida fosse capaz de me levar à solução. Deixei para trás um motorista preocupado que respondia atordoado às perguntas do guarda. Acho que uma família ficaria sem alguns presentes de natal por causa daquela multa que havia sido culpa minha.

Tudo que eu mais odiava era ter que desviar do mar colorido que se formava de sombrinhas, guarda-chuvas, capas de chuva – e para o mendigo da esquina, um jornal úmido na cabeça e outro sob o corpo – que se formava em razão da precipitação que persistia em tomar conta do clima da cidade desde a noite passada.

Chegando ao prédio que procurava, deixei-me levar pelo elevador, só me dando conta de alcançar o destino quando a porta abriu-se revelando um corredor silencioso. Olhei para o relógio e temi ter realizado o caminho em vão, afinal, era de se imaginar que àquela hora as pessoas já estivessem nos seus respectivos trabalhos.

Saí do elevador e caminhei até a porta do apartamento número 408. Ficava no fim do corredor, perto de uma janela que distraiu por instantes a minha atenção, até que no retorno a ela pude tocar a campainha. O barulho ecoou do lado de dentro e passos eram audíveis em seguida.

Ele abriu a porta e minha única reação, isto é, a única coisa que meu corpo se permitiu fazer foi caminhar na direção dele de cabeça baixa e a um passo de distância, me deixar cair de exaustão. Ele abraçou-me de forma a me apoiar e quando ia me tomar nos braços com fim de me levar à sala ou ao quarto, protestei, pedindo para permanecer no mesmo lugar. Contragosto, ele obedeceu.

Ficamos sentados no piso perto da entrada por um sem fim de tempo. Ele tinha uma xícara de café na mão e com a outra acariciava meus cabelos como se isso fosse capaz de espantar os pensamentos dali e, de certa maneira, a cada movimento eu conseguia respirar mais tranquilamente.

Era visível na ansiedade da sua respiração que ele tinha necessidade em saber o que me acontecia, apesar disso, ele se resignava em me aguardar encontrar algum lampejo de razão e resolver contar – voluntariamente – o que me afligia. Era sempre assim, ele me deixava saber que estava ao meu lado e que dali não sairia mesmo quando tudo estivesse bem, simplesmente pelo fato de não pretender jamais sair do meu lado. Isso me fazia sentir uma injusta desajuizada. Não era bom para ele que se tolhesse sua perspectiva por minha causa e mesmo assim o fazia refém do meu capricho de desejar a sua companhia.

Quando a voz se sentiu menos tímida na minha própria garganta, puxei o punho da blusa de frio e deixando à mostra a pele, perguntei se ele via as cicatrizes ali. Ele balançou a cabeça negativamente, como era esperado. Ele sempre fazia isso.

Em verdade, no braço nu não era visível qualquer marca, todas elas estavam dentro da carne, dentro de mim ou naquilo que costumam chamar de “alma”. Apesar de não serem feridas visíveis, eu sangrava compulsivamente e sentia uma dor dilacerante a cada pulsar. Eram os sentimentos vazando e me deixando oca ou talvez fosse a razão indo embora e me deixando louca. De toda forma, eu estava perdendo o que me fazia eu.

Para completar a encenação que acontecia dentro da minha confusão, vozes começaram a gritar por socorro, como se somente eu pudesse ouvi-las. Olhei para ele que de nada sabia e me mantive alheia aos pedidos insistentes, tão nítidos.

Quando dei por mim, já estava acordando, de volta ao meu apartamento – no tapete da sala, se faz mais sentido – e, nas mãos, tinha uma camisa sua. O perfume que já ameaçava fugir com o tempo estava cada vez mais distante e imperceptível.

Foi assim que me dei conta de que aquele sonho foi apenas mais uma das minhas ilusões.